"Eu... Eu estou
com um frio no estômago, sabe? Uma angústia porque... Eu não sei. Na verdade eu
sei, mas... Esquece. Esquece. São paranoias, confusões na minha cabeça. Eu não
quero que tu me ache estranha, eu não quero estar estranha contigo. Não agora,
principalmente. Eu quero, na verdade, ficar bem perto de ti. Eu estou com...
Eu... Com medo... Uma sensação definitude, de que... Tudo tem um fim. Não, não
te assusta, não estou falando de nós, estou falando da vida em geral, estou
falando que tudo parece passar, assim, de um jeito que... Que se piscarmos os
olhos nós vamos perder de vista... E que nunca mais vai voltar, que não teremos
a mesma chance uma vez mais. Não! Que os olhos que estão na frente dos
nossos num segundo não estão mais lá. O amor? Um sonho antigo o amor. Tão antigo
e tão efêmero...Como o pôr-do-sol. Ao mesmo tempo em que é eterno, é apenas um
instante, e logo virá a escuridão. Eu não quero que o instante acabe. Eu quero
viver com intensidade aquilo que eu desejo e que eu amo. Uma luta pela própria
vida, uma luta sem descanso... Porque depois o descanso será eterno. Por isso
essa angústia. De que a luta, no final das contas, não valeu apena, que esse
combate existencial que temos pela frente todo santo dia é apenas um sopro,não
mais que isso... Metáfora triste de uma vida que não tem tanta importância
porque não pode ser guardada nem mesmo na memória, porque esta também é efêmera.
O que fica de tudo isso, no fim? Porque o fim está ali na frente. Eu quase posso
vê-lo quando estou triste...Nada fica no fim. Existe apenas isso que estou
dizendo neste momento, existe apenas o que faço agora, o que fazemos juntas...
Mas, e depois? O resto é um passado sem volta que desejamos reviver ou
esquecer... Reviver não podemos, mas esquecer... Esquecer temos pelo menos a
morte para esquecer... Mas reviver não! Só existe a caminhada, desde
que nascemos... Desde que nascemos e aprendemos a caminhar, vivemos
para isso... Só o caminho importa. E ele é tão solitário..."
Assinado: Anónimo
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